"Todos os dias Vasco fazia descobertas que o deixavam emocionado.
Mas havia momentos amargos. Era quando lhe faltava o dinheiro.
Quando chegava o fim do mês, ele evitava, constrangido, o pessoal de
casa. Sentia-se um parasita, um explorador... Em junho, felizmente,
conseguira, por intermédio do tio Couto, um trabalho que lhe rendera
duzentos mil réis: pintara cartazes para uma vitrina. Mas o dinheiro
criara asas...
E ele sentia uma censura permanente nos olhos de D. Clemência.
Ah! mas vergonha, mesmo, ele tinha era de Clarissa...
Atirou fora o resto da laranja.
Aquilo não podia continuar. Precisava encontrar trabalho...
Viera com tanta esperança... Com a impressão de que ia conquistar a
cidade, o mundo. Parecia-lhe tudo tão fácil... Imaginava que todos os
caminhos se abririam para ele. Nada disso entretanto acontecera.
Entregou-se a reflexões tristes.
Clarissa ia todas as manhãs para Canoas, encolhida de frio, de
nariz vermelho. Fernanda saía um pouco mais tarde; seu colégio ficava
no Partenon. Noel ia para o jornal às dez. Só ficavam nas duas casas
as velhas, o bebê e ele, Vasco.
Eu, o marmanjo!"
Mas havia momentos amargos. Era quando lhe faltava o dinheiro.
Quando chegava o fim do mês, ele evitava, constrangido, o pessoal de
casa. Sentia-se um parasita, um explorador... Em junho, felizmente,
conseguira, por intermédio do tio Couto, um trabalho que lhe rendera
duzentos mil réis: pintara cartazes para uma vitrina. Mas o dinheiro
criara asas...
E ele sentia uma censura permanente nos olhos de D. Clemência.
Ah! mas vergonha, mesmo, ele tinha era de Clarissa...
Atirou fora o resto da laranja.
Aquilo não podia continuar. Precisava encontrar trabalho...
Viera com tanta esperança... Com a impressão de que ia conquistar a
cidade, o mundo. Parecia-lhe tudo tão fácil... Imaginava que todos os
caminhos se abririam para ele. Nada disso entretanto acontecera.
Entregou-se a reflexões tristes.
Clarissa ia todas as manhãs para Canoas, encolhida de frio, de
nariz vermelho. Fernanda saía um pouco mais tarde; seu colégio ficava
no Partenon. Noel ia para o jornal às dez. Só ficavam nas duas casas
as velhas, o bebê e ele, Vasco.
Eu, o marmanjo!"
Trecho do livro "Um Lugar ao Sol"
Impóssivel não se identificar em algum momento com os sentimentos dos seus personagens. Frustrações, dúvidas, alegrias... .
Sobre o livro, disse o próprio autor:
"Considero o elenco humano que povoa este livro o melhor de toda a minha obra, com exceção talvez de O Tempo e o Vento.
Escrevi sobre essa gente com tanta afeição e interesse, com tamanha fé
na sua existência, que acabei cometendo o pecadilho de todo o pai
vaidoso para qual tudo quanto os filhos dizem e fazem merece ser contado
ao mundo."
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